
Somos dois. O dia passa devagar em ações diferentes e diferentemente não estamos, mas somos, sempre somos. Seja sol ou chuva (também são dois), estamos em nossos momentos de brilho ou tempestade, obedecendo as nossas diferenças e nos assemelhando nelas. Somos sentindo. Continuamos os nossos dias diferentes, sem tanto nos aproximar, constatando as casualidades, comentando e rindo delas, compartilhando as nossas frescas solidões a distância, como dois que vêem diferente. Somos seguindo. Nossas histórias aos outros que não são nós tem seus nós, aquelas emendas que suavizam e descartam o que talvez nem precisava ser suavizado, mas também é de desnecessária publicação, delicadas omissões. Somos omitindo. Chegamos às nossas solidões em particular, particularmente sós, a sós. Trocamos as nossas mentiras falsas como odes (odilê, odilá) e vomitamos tudo o que podemos e queremos vomitar. Somos sorrindo. Tocamos as feridas um do outro e seguimos até onde é possível tocar, aí somos somando. O resultado é um outro, não um terceiro e sim um anterior, mais antigo, mais novo, mais lascivo. Não somos mais. É apenas um, solitário, desafligido, sem preocupações a não ser a de descobrir os quatro cantos do seu espaço íntimo. Em cada canto desse íntimo há um caracol, um pingente e uma trança. Esse festival de signos se desenrolam lentamente, ao seu tempo, se perdem e se acham a cada olhar furtivo e mantém a tensão presa nesse um que desintegra os dois. Desatam-se os nós em uma fita que passa a transmutar em cores vivas, só cores vivas, que se realçam a luz do dia, um único, solitário mas preenchido, desnecessário mais adjetivos. O sol e a chuva também estão juntos no mesmo céu, é só olhar além das diferenças do dois. Somos um.
Ps: Obrigado pela idéia.

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