terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Fratura


Quebrou. Quebrou e doeu, pra caralho. Não sou de arrastar trem muito menos bonde, mas tava um calor danado naquele dia esquisito e eu arrastei tudo, entrei de carrinho com os dois pés. Tava já esperando o cartão vermelho, antes fosse, porque nego pulou, e aí quando você dá um carrinho e nego pula, fodeu. Ninguém que vê um carrinho com os dois pés e pula deixa de cair em cima de você, e cai com os dois pés também. Aí dói, quebra, chama a maca, o juíz fica naquelas de "Expulso os dois? Amarelo pros dois? Um já vai ficar fora mesmo...deixa quieto" E aí fica quieto, mesmo se quebrar. Vira acidente, choque acidental. Se não tem juiz, caso de jogadas que envolvem uma arrastadas antes do carrinho em questão, então nem tem conversa, não queria tudo, neguinho? Fica quebrado aí... Nego ainda tem a manha de te visitar no estaleiro, perguntar se tá bem, se quer conversar sobre essas fraturas da vida, mostrar os gols que ele tá fazendo e você lá, quebrado. E se você encontra os amigos depois pra reclamar ainda ouve "Mas você que entrou de carrinho, com os dois pés. Tu não é nem de arrastar bonde e veio arrastando trem e os cambau. Tomou. Eu falei. Carrinho só na bola, senão ou quebra ou sai quebrado. Parece até esses malucos que acreditam no amor, ou quebram ou saem quebrados. nada mais justo". Mas você nunca acha justo, se tiver apelação apela, se tiver replay, repete e alega que nem era carrinho, era na bola, mas quem arrasta trem nunca vai na bola. Jogos são cruéis e todo mundo joga. Todo mundo. Principalmente quem diz que não joga, esse é o pior tipo de jogo. Diz que não joga, que não é de jogo, que jogo não é legal, o legal é o natural e depois marca no caderninho em casa todos os gols e as puladas dos carrinhos. N-a-t-u-r-a-l-m-e-n-t-e.

Prefiro jogar bola.

Alto Mar

(Dante Ozetti, Luiz Tatit)

Olhou o mar, a imensidão, mas não desanimou
Deixou o cais na embarcação
Remou, remou, remou
Depois cansou, mas ao tomar a brisa em alto mar
Sentiu prazer e não voltou, jamais.
O humor do mar, vigor do sal
O entra e sai do anzol
Água que deságua em água, água, tudo igual
E um barquinho pontual
Fez seu lar seu ninho lá sozinho ao léu
No chão do céu, sol a sol
E a lua toda noite, toda sua
Deu ao mar o que é do mar
O dom de errar, o deus dará
Pau a pau pra quê lutar?
Seu lugar é o vão do bote
O mar não pode ali entrar

domingo, 18 de janeiro de 2009

Referências

Não me referia mais aos meus sentimentos especificamente, me referia a você, a ausência que mereço, a presença que você merece, aos fatos que não são fatos, pois são uma história diferente em cada cabeça e são táteis para qualquer um, sendo então duas realidades convivendo num mesmo meio, num mesmo tempo para um mesmo acontecimento, sendo duas verdades para uma mesma sequência, ambas válidas. Não me referia mais ao que eu queria falar eu devia ter falado, me referia ao silêncio, pois não há som que ultrapasse um juízo formado. Não me referia a raiva intraespecífica das pessoas pequenas dentro delas mesmas, estou fechado na minha e não tenho a menor intenção de expô-la a ninguém, me referia ao respeito de guardar o que não pertence mais a ninguém.
Eu ainda "sou você e os meus rivais. Sou só".

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Bandeira branca

Música e letra do Geraldo Vandré. Muito útil nesse momento.




Certeza no coração
Bandeira branca no ar
Alegrias e tristezas
Deixo correr misturar
Quem sou eu morena linda
Quem sou pra separar
O que se juntou na vida
Que faz rir que faz chorar

Não tem erro nesta história
Nem vai na cantiga errar
Quem conhece a história antiga
E ainda sabe recontar
Se for preciso morena
Na frente ainda vai inventar
E de trás pra frente
No fim vou principiar
Já disse um cantor mais forte
Da terra pra me ensinar
Tanto faz dá na cabeça
Como na cabeça dá

Não se passa limpo a sorte
Nem na vida e nem na morte
Não queira morena linda
Que eu queira agora passar
Só bota a mão na rudilha
Quem pode o pote pegar
Quero ver
E quero a rainha
Do reino quero reinar

A dor já se compreendeu
Meu grito já sei guardar
E mais ainda morena
De longe meu canto dá
Um doce morena linda
Pra ainda hoje encantar
Voce que está tão distante
Mais que vai tanto esperar

Quem vive contando estórias
Poucos diz a precisão
Tem muitas horas de glória
Que podem ser perdição
Mas eu que contando o relato
Por dever de profissão
Quando chegam essas horas

Dos fatos faça memória

Cansei de imaginação
E da perdição ou glória
Arranco uma nova história
Morena
Cada vez com mais razão
Não paro começo de novo
Na roda do meu cantar
Quem quiser pode sair
Quem quiser pode ficar
A roda do samba de novo
Agora de novo a rodar
E tudo começa outra vez
Com mané na viola a violar

Não tem erro nesta história
Nem vai na cantiga errar
Quem conheçe a história antiga
E ainda sabe recontar
Não erra morena linda
Pode muito mais se criar
Na invenção seja bela
Também pode misturar
Também pode se perder
Quem depois sabe encontrar
Não tem erro na cantiga
Já disse vou voltar

Mas dez mil vezes
Quem disse que eu vou negar
Se meu pai mandou dizer
Como é que eu vou negar
E voce morena linda
De longe a me esperar

Terra Nova


As meninas vinham de Minas atrás de outras especiarias na capital paulista. Encontraram rendas curtas, saias curtas e pernas enxutas na rua Augusta. Lá foram se estabelecendo como jogadoras, se conhecendo como giras, sendo menos conservadoras, mais bem pagas e solícitas. As meninas de Minas agora eram as minas, las chicas, the chicks, suas sombras perdidas na Zona da Mata.