To buscando inspiração no Tantaprosa, que aliás era muito bom. Busquei um texto do Salvaterra e resolvi postá-lo aqui. Vale a pena mesmo.
Escada de Jacó
André Pescaldo descia devagar, as escadas e a própria mente: em direção à sua cova pessoal, cavada no fundo de seu púbis virulento e enrugado. Pisou tantos degraus quanto pode, até o momento em que a tristeza e a incerteza o mataram de dores nas unhas dos pés. Deslizava as mãos pela parede destroçada por tiros e urina — o cheiro do ácido úrico queimando fundo em seu útero petrificado (Pescaldo era artista improdutivo). Sentiu o ranger dos pregos safados roçando na madeira ordinária da escadaria do cortiço. Pisava pensativo cada degrau com medo de descer pelo próprio corpo e encontrar seu escuro pessoal do qual não escaparia.Quando se ajeitou na porta da cozinha comunitária (alinhou a gola da camisa, puxou a cueca para o lugar), sentiu a protuberância pontuda contra seu nariz, que era o cheiro absurdo de cebola cozida. Absurdo, em verdade, contra sua existência, pois aquela pasta forte e quente o acusava de faminto. Sentiu o estômago contorcer-se num espasmo de vida, um animal de boca escancarada lutando contra seu hospedeiro.Contou o dinheiro do bolso, sentindo o peso de seu pulso ossudo pendurado em seu braço marcado de agulhadas que quase o estraçalhavam. Resolveu deixar a comida para quem podia. Não, ele não podia. De forma alguma. Tinha hora marcada com o colchão imundo estirado no chão de seu cômodo. Comprou mais uma dose e torceu para que aquela o levasse daquele lugar: arrastado, com uma estampa de saliva espumosa no peito, a delatar sua morte para daqui a dois segundos.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
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